sábado, outubro 28, 2006

As Palavras que Somos?




(Brian Eno – Thursday Afternoon )

Um dos meus dilemas: Espiritualidade Explícita vs Espiritualidade Implícita.

Espiritualidade Explícita = A linguagem usa termos exclusivos dos nichos de estudo espiritual. A tonalidade da informação compete e por vezes sobrepõe-se à qualidade do estímulo energético.

Espiritualidade Implícita. = Qualquer linguagem serve. O que interessa é o estímulo ígneo secreto e não a tonalidade da informação à superfície.

No fundo, "espiritualidade" – e quase todas a palavras que orbitam este centro significante – é uma palavra que sofreu uma erosão definitiva. Tal como as palavras "Católico" ou "Sexo" ou "Defesa". O que é que essas palavras querem dizer realmente, hoje? São guarda-chuvas sob as quais se abrigam fenómenos completamente opostos e irreconciliáveis.

Quando digo “católico” incluo um franciscano em jejum a caminho de Santiago com o coração pleno de Realidade e o Banco do Vaticano, obscuro, oligárquico, profano. A mesma palavra significa vibrações opostas.

Hoje acordei com esta impressão de que a vitalidade do nosso campo de significantes é limitada. Tal como uma árvore nasce, cresce e morre tenho a impressão de que a linguagem tem a mesma evolução e que as palavras que temos hoje – quase as palavras que somos – têm o tempo de vida da nossa permanência em certos planos de vibração.

Quando os homens mudam de foco as palavras têm de evoluir com eles ou simplesmente desaparecem. Outros sons, outras partículas significantes virão. Mas o que é a evolução de uma palavra? Ou a evolução do acto de falar? (eu prevejo um renascimento tímbrico, um renascimento mantrico na nossa oralidade colectiva)

A vitalidade de entidades como a linguagem, a televisão, o governo parece estar a chegar ao fim: Falar ou não falar em muitas circunstâncias é indiferente porque o factor mântrico-ígneo está ausente (isto é: informação tornou-se mais importante que estímulo ígneo), uma guerra em televisão transformou-se em entertainment, o governo é essencialmente uma folha de Excel com gravata, etc.….

A boa notícia é que como uma árvore que morre e o seu corpo decomposto gera a base fértil necessária para o desenvolvimento de novos organismos, nova vida, também a cultura que morre gera adubo psíquico. Mas essa base fértil é visível na morte da nossa cultura? Já temos adubo suficiente para ver nascer a nova linguagem, a nova televisão? O novo governo? Será que já cheira suficientemente mal para podermos dizer que somos um planeta rico em estrume cultural?

Por exemplo: às vezes tenho a impressão de que a televisão do futuro – se houver tempo antes de uma intervenção celeste directa - será feita por pessoas sem treino técnico nenhum, com equipamento very low-fi, com orçamentos praticamente nulos e com uma noção de momentum televisivo igualmente nula. E serão finalmente os programas de televisão mais fascinantes que alguma vez vimos. Serão estratégias pobres com resultados surpreendentemente duradouros.

Sente-se que a morte da cultura, isto é: a morte de milhões de palavras - hoje palavras = sons que significam muitas vezes coisas opostas; a morte do governo – hoje governo = máquina de calcular electrónica de bolso; a morte da televisão – hoje TV = entertainment, deveria estar a criar um tapete underground de autêntico desespero, angústia, desorientação e silenciosa revolução, quero dizer – um tapete extremamente fértil, um composto orgânico a partir do qual os homens podem reinventar tudo: nova vida.

O retorno à PESSOA passa necessariamente por uma denúncia e decomposição do “uso da pessoa”, entenda-se “abuso da pessoa”. Talvez por isto uso tão pouco palavras como “Deus”, “Amor”, “Bondade”. Porque sinto que estas palavras são tão vastas que acabam por manipular as pessoas – porque querem dizer tudo, a coisa, o oposto da coisa e nada. São excessivamente explícitas, espiritualmente explícitas.

Não falar de espiritualidade é uma forte tentação. Assumir uma estratégia pobre. Tornar a informação implícita e expôr apenas o estímulo ígneo – poesia, dança, pintura, música, economia, silêncio.

Por outro lado eu amo as palavras. Elas são os meus lápis de cor.
Bzzzzzzzz... podem-se escrever volumes sobre isto. Vou fazer um chá...

AN

terça-feira, outubro 24, 2006

O Observador às 12 horas




(Gymnopédias de Eric Satie – Chuva – Alguns pássaros)

(…) Mais uma vez uma pessoa sente-se sobrevoada por uma Presença, um Observador. Tanto quando posso perceber trata-se do meu Ser Interno.

Um Observador planante, mas agudo, que QUER estabelecer um vínculo, um compromisso. Quer e PODE estabelecer um vínculo com o consciente.

As horas fluem, como água da quarta dimensão no leito da consciência cerebral e gradualmente o Observador passa de uma pressão subliminar para a elevação moral e ética a um chamado agudo para a ascensão. Ele transforma-se ao longo do dia… de uma voz construtiva falando no centro do tórax a um Poder Radical pressionando o centro coronário… A pressão aumenta sobretudo no alto da cabeça. Sobrevoa o crânio e pressiona.

Quando Ele está perto todo o mundo em volta - o ambulus - brilha como se fosse Natal. A cera das plantas, a acústica redefinida pela humidade do ar, as memórias de pessoas e lugares... como se a Mónada fosse afinal um secreto colorista, um aguarelista doce e penetrante, um reconfigurador não só do filtro filosófico mas dos impulsos sensoriais.

E depois sempre esta pergunta carregada de ansiedade:
"Que espécie de vida psicológica sobrevive a uma descida integral da Força?..."

Best,
André

domingo, outubro 22, 2006

Turbinas em baixa rotação


É sempre interessante um estado de convalescença. Depois de 3 semanas deitado, num casulo de virose regresso à vida para apreciar um painel de cores outonais. Tudo lento. A minha cabeça principalmente. Como aviões em manobra na pista mas sem grande vontade de descolar.

E no entanto Sírius.... ( ... )

Best,
AN