segunda-feira, novembro 06, 2006

Instrução Espiritual e a História Interminável



Acredito que há pelo menos 6.000.000.000 de formas diferentes de fazer a mesma coisa.

Talvez por isso há um fenómeno que me descompensa um pouco no mundo religioso – e que atinge igualmente o mundo da busca espiritual integrada a organizações e a figuras carismáticas – e é este:

Uma história, “a história> o instrutor que conhece a história> uma audiência passiva cuja única forma de se livrar da história é esperar que o instrutor chegue ao fim de contar a história.

Bem, este é um tempo em que os instrutores espirituais são apenas responsáveis pelo despertar nas massas da consciência de que realmente HÁ uma história (de onde vimos, para onde vamos, onde estamos neste momento, etc...) Mas não está claro se a função destas pessoas, digamos espiritualmente explicitas, seja a de contar a história até ao fim. Porquê?

Primeiro porque, de um ponto de vista iniciático profundo, os instrutores estão tão perdidos quanto o resto do mundo, eles simplesmente lidam de uma forma sagrada com o seu labirinto – o que é bom – depois porque contar a história até ao fim é uma atitude própria dos pais e das mães e num mundo de seres que se querem adultos e que já tiveram que arcar com um par de pais na infância... quem quer mais pais e mães depois de crescer?

Uma característica do indivíduo adulto é a de que ele termina as histórias que chegam até ele e as que nascem dentro dele - pela forma como vive.

Eu chamaria pai-mãe aquelas figuras para quem corremos em busca de segurança e GPS e chamaria irmão mais velho aquelas pessoas que nos desafiam, estimulam e desassossegam porque nos contam histórias que ainda não compreendemos bem mas nos magnetizam e chamaria irmão aquelas pessoas que nos ensinam coisas igualmente inesquecíveis simplesmente sendo eles mesmos e vivendo a árdua tarefa de manter o mundo a funcionar.

As pessoas espiritualmente explícitas – os instrutores – sabem, no íntimo, que o Universo lhes deu um mandato para oscilarem entre a figura do irmão-mais-velho e do irmão, não mais, não menos. Se forem bons contadores de histórias –afinal todo o conhecimento é uma narrativa até se transformar em Sabedoria dentro de nós, momento em que passa a ser uma vibração - saberão quando criar espaços, silêncios, formas moderadas, metáforas incompletas e regiões por definir de forma a que cada um de nós possa pegar na história com que se identifica e seguir construindo a sua parte da aventura.

Creio que é tarefa de um instrutor profundo contribuir para apresentar ao mundo espaços desconhecidos, espaços de cognição suficientemente definidos para serem reconhecidos mas suficientemente abertos para manter em nós um espírito de aventura e maravilhamento: em suma, espaços do ser totalmente enigmáticos e totalmente familiares ao mesmo tempo.

Por outro lado isto não desvitaliza ou reduz a tarefa de um instrutor. Sinto que -enquanto não eclode uma iniciação global- precisamos de mais instrutores e gurus e não de menos, mas precisamos de instrutores diferentes, que produzam um desassossego genuinamente libertador e que saibam contar a sua história mantendo tudo em aberto, isto é estimulando no receptor a actividade de criar a sua parte na história, como um professôr que expoe os alunos ás suas próprias preplexidades sem contudo anarquizar o seu trabalho de tutor. Não se trata apenas de instrutores com humor, mas de instrutores com consciência operativa da Vastidão do Ser.

Lembro-me de que quando era pequeno queria muito saber o fim das histórias, de outra forma acumulava-se um sentimento de insegurança. Agora aos 40 anos não sei se estou tão interessado em saber como as histórias acabam porque a responsabililidade pela minha própria história individual tornou-se a forma de contribuir para o fim de todas as histórias possíveis.

Um dos aspectos pobres da Bíblia entendida em termos populares – existem também os aspectos imensamente ricos naturalmente – é de que se trata de uma história fechada: Deus criou o mundo assim e assim, depois aconteceu um acidente assim e assim e o mundo avariou-se, depois veio um Messias que disse como se consertava o mundo e passou-nos a tarefa, depois, no fim, vem a contagem dos pontos e a salvação. Enquanto história é muito circular e fechada, sossega a criança em nós mas não deixa muito espaço para uma criatividade posterior.

Mas a verdade-mistério é que a Jerusalém Celeste, descendo à Terra - e eu faço parte do grupo de loucos que sente que isso vai acontecer literalmente e não apenas simbolicamente - não é o fim da história mas o princípio de uma nova aventura, o encontro da Humanidade com um patamar de stress criativo e responsabilidade cósmica muito mais vasto.

Depois de restaurado o Paraíso na Terra as nossas histórias individuais não terminam: cada ser receberá tarefas e desafios que hoje não podemos ainda compreender.

E cada um procurará mergulhar em mistérios cósmicos novos de formas novas e imprevisíveis, com uma impecável agilidade, diversidade e pluralidade.

O Livro de Urantia afirma que mesmo os Arcanjos tem lendas e especulações sobre como começou a Ilha Central de Havona, a singularidade das singularidades. Deduzo que quanto mais singular fôr o modo de caminhar de cada um de nós mais próximos estamos de Havona.

Não sabemos como a história acaba ou se acaba. Se dissermos que nunca acaba e não tem fim creio que isso já é abusivo, pode ter fim, pode não ter. É optimo.

Ad Astra
AN

6 comentários:

Nal'Ij disse...

Um bom historiador não pode contar a história do mundo até ao fim. Pode contar o que se sabe que aconteceu, recolhendo documentos que podem ter sido manipulados, e informações em baixo-estratos da terra.

Como tal, a história digamos, não espiritual porque soa New Age Mainstream, mas transcendente não pode ser contada nem até ao fim, não completamente e muito menos imparcialmente.

Um bom instrutor, e continuando a metafora da escola, deve ensinar a criança a pensar por ela mesma, e em como lidar com os acontecimentos e ensinamentos dados, de modo a ter um efeito produtivo nos anos que hão-de vir, em vez de lhe ensinar a decorar o que está escrito.

Num espectro mais uma vez transcendentes, é quase óbvio que não compreendemos tudo, nem todos os sinais possíveis que podem parecer fáceis. Mas podem não o ser. O papel de um instrutor é ensinar a pessoa a lidar com a informação de modo a repetirmos os mesmos feitos e desencadear-mos outros sem cometermos os mesmos erros. (continuando com a metafora da história)

Eu continuo a avaliar o Homem no seu estádio verdadeiro como uma criança. E por isso apoio o que dizes sobre a Bíblia. Além de ser um enredo muito linear, não deixa coisas em aberto. Até nos diz como supostamente o mundo vai acabar. E a criancinha a quem se lê a Bíblia fica muito aborrecida. Porque Jesus é um santo, mas não é um héroi. Assim não é um arquétipo emocionalmente aceite por uma humanidade imatura (isto é um elogio.)

Gostei e espero por mais,

Daniel, o teu sobrinho.

Anónimo disse...

André,

Obrigado por mais um exemplo de lucidez. É bom tê-lo como nosso irmão-mais-velho...

Bem haja!
F.T.

Lapsit *Exilys disse...

Toda a espiritualidade explícita contém implícitas inúmeras histórias, pelo que um verdadeiro Instrutor será irremediavelmente um maravilhoso contador de histórias. :)
Mas…
Um contador de histórias, desempenha o papel de um navegante pioneiro que abre novos horizontes onde o seu arco de Conhecimento, estimula pontos de sensibilidade criativa e imaginária a quem o ouve.
Já o Instrutor, deverá ser um vaso contentor de Sabedoria, um veículo responsável, capaz de transportar directa ou indirectamente quem por ele é instruído a planos de consciência sempre mais elevados, onde se entrecruzam realidades paralelas ou transcendentes, consoante a percepção da realidade interna de cada Ser.

Creio porém, que o fim de qualquer história, contada ou transmitida, será sempre o início de uma outra, pelo que o começo ou o término de cada uma, é apenas um detalhe… o virar de uma folha ou o abrir de um novo livro.

Sharin!

paula gonçalves disse...

Histórias e mais histórias a verdade é que elas são muito importantes no nosso crescimento...
A Harmonia da existência só é alcançada quando alcançamos uma comunhão interior com algo que é muito maior do que nós e nos transcende e que neste Planeta ainda nos está vedado.
Mas são as histórias que nos ajudam à nossa cura e quando a mesma aconteçe em nós ou no nosso irmão, o mundo começa a beneficiar e fica mais perto de receber a luz espiritual integral.
Deste modo estamos a construir algo que nos irá levar à Nova Terra ou Jerusalém Celeste como tu dizes e aí sim a verdadeira história pode enfim começar...
JESUS deixou em todos uma estrela no coração quando ela brilhar este Planeta será transposto para uma dimensão diferente de Vida onde a plenitude, liberdade e Amor poderão tocar todos os seres

SHANTI
Paula Gonç

Mariah disse...

Meu Irmão ... Mais Velho!

E se o fim da história fôr o fim de cada um de nós como "personna"?!

E se a história em si-Una- não tiver um fim?!

No final e no interior de cada um, o que irá interessar?
- O modo consciente de saber que existiu uma história, um instrutor que a soube transmitir, um discípulo, adepto ou ouvinte que a assimilou e nela se transmutou?!
- Ou apenas o facto de que houve um instrutor que contou uma história e um ouvinte que passivamente a escutou?

Creio que bastará ao instrutor, que numa audiência, o ouvinte não esteja passivo, mas consciente de que o saber fará a sua prórpia história.

Creio que bastará ao instrutor, perceber, que o calor do seu coração incendiou a audiência e que a sabedoria que o verbo traduziu, iluminou a história de cada um.

Creio que bastará ao ouvinte, adepto ou discípulo abrir o seu coração e beber o "vinho" do saber.

Por isso,cada aula, cada sessão preenchem a "Biblioteca Viva" e a história nunca tem fim.

Afinal o Futuro e o fim não pertencem ao Logos Planetário?! e o Logos tem fim?!

A nós, intrutores ou não, cabe-nos o propósito de estarmos o mais próximo possível do Espírito, em consciência da história que nos fez nascer e nos fará renascer a cada dia!

Juntos ( Instrutor > história > audiência) construiremos... Jerusalém Celeste!

Shallom Meu Irmão!UM ABRAÇO EM LUX
MJM

Anónimo disse...

Porém, uma pessoa que lê a bíblia e não tem a cultura cristã deduz que este Deus é um Deus partidário de um povo, apenas um pouco melhor que nós, que castiga pessoalmente e que envia seu unico filho para ser sacrificado. E Ele, sendo sacrificado por quem não o reconheceu e por quem não o defendeu, salvou a todos os seus assassinos da morte. Isto tudo sem o menor trabalho, sem a menor mudança da parte deles. Simples assim : ele se sacrifica e todo mundo sai livre... Então, acho uma história como dessas infantis que muita gente boa quer mudar o final, por ex.: a do lobo mau onde a vovó é salva de dentro da barriga proprio e não morre.
... o leite para as criancinhas e a carne para os homens...
No seu aspecto exotérico é pouco convincente. No aspecto esotérico é pouco conhecida e mal traduzida e manipulada por longos séculos. E ainda assim é um grande livro. Também creio na Jerusalém Celeste. Porém nãosei se iremos até lá ou ela virá a nós.